E o que é que tenho, então, para dizer? Que quero ir para a minha casa, mesmo toda desarrumada e a precisar de aspiradores, vassouras, panos do pó, esfregões, esfregonas... Temos tudo, obrigada! Só precisamos de mão-de-obra.
Por falar em "temos tudo", é mentira. Estamos de pezinhos na areia há três meses e ainda não conseguimos levar lá gente a casa para jantar ou almoçar. Noutro dia demos jantar à nossa visita mais frequente no sofá, coitadinha. É que, ainda por cima, não sei bem o que nos passou pela cabeça, mas pusemos a única mesa que tínhamos, e que dava para quatro pessoas (seis, se contarmos com os bancos do campismo e se partirmos do princípio de que duas delas têm 1,85 metros, para chegarem à mesa, e não têm pernas, porque de lado não há onde pô-las). Perco-me sempre que faço parêntesis, pá. Não perco nada. É que, depois de um intervalo tão grande, não gosto de retomar a conversa como se nada se tivesse passado e obrigar as pessoas a andar para trás. A mesa está na minimarquise da cozinha. Está lá, a servir de poiso às tralhas do café.
Falta-nos uma mesa para a sala - entre outras coisas que agora não interessam para nada. Nós não somos as pessoas mais organizadas do mundo, é verdade. Se calhar já podíamos ter comprado taças de sobremesa, por exemplo, e ainda não calhou. Sei lá, nunca nos passa pela cabeça e, além disso, o meu pai foi lá um dia levar-nos algumas tigelas, que servem perfeitamente ora para a salada de frutas, ora para a sopa, ora para os cereais. Não somos esquisitos, mas é uma chatice ter de estar sempre a lavar loiça.
(ALERTA: O pensamento “não precisamos de máquina de lavar loiça porque somos só dois e não se junta muita loiça” é falacioso, ilusório, enganador. Comprai máquina da loiça, comprai. Nós não comprámos e eu arrependo-me sempre de cada vez que tenho de ir lavar uma pilha de pratos, e tachos, e panelas, e copos, e carradas de chávenas de café.)
Avizinha-se a compra de uma mesita, quiçá?, lá para o mês que vem. Vou fazer anos, e era simpático poder fazer lá um jantar, mas não prometo nada. O carro anda a ameaçar perder a panela de escape e, caso isso aconteça, não há mesa para ninguém.
Eu gosto é disto. Desatar a escrever sem saber no que isto vai dar e chegar no fim à conclusão de que mais valia ter ficado quieta. Mas ao menos assim não fiquei aqui, longe de casa, a pensar nela sozinha. Quando escrevo sinto-me sempre acompanhada. Quer dizer, o momento exacto em que escrevo é solitário, porque na realidade não estou a falar com alguém, mas a ideia de estar a contar coisas a alguém e a perspectiva de haver um leitor ou interlocutor fazem-me companhia.


